Referendos Inúteis
"Os referendos são inúteis. São inúteis porque o resultado final é pré-determinado e a única variável em disputa é o tempo.
O tempo necessário para se repetirem as consultas populares até que o povo faça a vontade a uma elite ou vanguarda autoconsideradas detentoras da verdade.
Se não é à primeira, é a segunda. Se não for à segunda será à enésima vez. Foi assim com o aborto em Portugal, assim tem sido com os tratados europeus na Dinamarca e na Irlanda. Cautelarmente em países com opinião pública mais difícil de domesticar não se repete o referendo, mas muda-se o embrulho da matéria antes referendada para que não haja novo referendo. Uma espécie de não referendo do referendo. Foi o caso, há anos, com a França e a Holanda.
No ínterim da repetição de um referendo, o povo é "reeducado", pois que antes decidira mal. Ou porque não sabia, ou porque se enganou, ou porque se confundiu. Se necessário, adicionam-se umas promessas laterais, excepciona-se ‘à la carte' qualquer engulho referendário ou traveste-se qb o dito referendo. Uma vez garantida a vitória, decreta-se o dia ajustado para que o povo acabe por engolir o que antes rejeitou.
Claro que a realidade é mutável e o mundo está sempre em transformação, seja nas questões sociais, comportamentais, políticas ou europeias. Por isso, não é nenhum crime lesa-democracia repetir referendos. Mas se isto é indiscutivelmente pacífico, será caso para perguntar por que razão só há repetição de referendos apenas num sentido, nunca nos dois! É que se o resultado de um qualquer referendo vai ao encontro do ‘diktat' do poder estabelecido, ponto final. Está-se perante uma "sentença definitiva transitada em julgado". Mas, ao invés, sugerir um qualquer novo referendo que ponha em causa, por exemplo, um "sim" europeu ou nas questões da vida é considerado anti-democrático (no mínimo) ...
A maioria dos dirigentes europeus e os eurocratas fogem cada vez mais dos referendos como o diabo da cruz. Ou alguém tem grandes dúvidas do que seria o resultado de uma consulta popular no Reino Unido, Polónia, República Checa, Dinamarca ou mesmo França e Holanda?
Chega de falsidade democrática e de ilusão de um modelo de democracia à escala europeia. Basta de tantas proclamações fantasiosas e demagógicas de "Europa dos cidadãos e do desígnio de continuar o processo de criação de uma União cada vez mais estreita com os povos da Europa em que as decisões sejam tomadas ao nível mais próximo possível dos cidadãos" (preâmbulo do Tratado de Lisboa). Basta de desrespeito pelo princípio fundacional da subsidiariedade.
Por medo, apoplexia tecnocrática, ou atestado de inferioridade conferido aos povos, o ‘gravy train' europeu não gosta definitivamente de dar voz aos cidadãos! Prefere "implementar" obsessivas regulamentações da vida desses mesmos cidadãos. Agora, no meio da crise, quer regulamentar - pasme-se! - o som dos iPod... a bem dos mesmos indefesos cidadãos."
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