"Na primeira década do séc.XIX, numa altura em que os devedores ingleses podiam apodrecer durantes anos na cadeia, nos EUA não existiam prisões para os devedores. A partir de 1898, passou a ser um direito dos cidadãos norte-americanos invocar o Capítulo VII (liquidação) ou o XIII (reorganização pessoal voluntária) ... a teoria é que a legislação norte americana existe para encorajar o empreendedorismo ... esta teoria, parece, sem dúvida funcionar. Muitos dos mais bem sucedidos empresários norte-americanos fracassaram nos seus primeiros empreendimentos, incluindo o rei do ketchup, John Henry Heinz, Phineas Barnum dono do circo mais conhecido do mundo e o magnata dos automóveis, Henry Ford."
Niall Ferguson, in
A Ascenção do DinheiroHá determinadas formas de olhar para a organização social que são impensáveis para o cidadão Europeu comum. Perguntemos a um Francês, Espanhol ou Português o que deveria acontecer a um empresário que decida fechar a sua empresa e a resposta será a mesma. Mesmo nos casos de falência anunciada, o pensamento é o de que o patrão é um ladrão. É a velha noção anacrónica do explorador do proletariado, a "alienação humana", segundo Marx.
Embora raramente se pare para pensar nisso, o que temos hoje em Portugal é uma visão Marxista da organização social. Não há luta religiosas, não há conflitos raciais ou mesmo culturais de relevância. Aquilo que temos é, isso sim, uma "luta" entre classes.
Deste o trabalhador independente, ao presidente de uma multinacional, todos são encarados de forma estranha, olhados até com uma certa desconfiança.
Em primeiro lugar, a maioria da população, que trabalha na função pública ou que de alguma forma é subsidiada pelo Estado, não é capaz de perceber o indivíduo empreendedor. Para estes, não é racional abdicar de uma suposta segurança laboral e financeira, para arriscar em algo que, no limite, é de impossível previsão. Enquanto que num país de influência liberal, o empreendedorismo é olhado como a forma mais correcta de encarar a actividade produtiva, num País como Portugal isso é olhado muitas vezes como uma irresponsabilidade. Para o Português, é vulgarmente o sujeito que não conseguiu ir trabalhar para o Estado ou para uma qualquer empresa com nome no mercado.
No que diz respeito ao Empresário médio, criador de postos de trabalho, a visão é ligeramente diferente. Por um lado, é o agente que paga salários aos seus trabalhadores. Eventualmente, dependendo da empresa e do sector, atribui ainda uma série de regalias que de outra forma seriam impossíveis de obter para o cidadão comum. Mas, e como numa boa sociedade Marxista, o valor do capital e a sua remuneração é um conceito desconhecido e mal compreendido . Por isso, é "moralmente" incorrecto que o empresário acumule riqueza. Para um trabalhador, a única percepção é a de que existe um roubo, o roubo da riqueza gerada pelo seu trabalho.
O último caso é o do Empresário de uma qualquer grande empresa. É conhecido mais frequentemente como alguém que se chegou onde chegou, foi de certeza através de uma qualquer actividade ilícita, da exploração de outros, da influência e chantagem sobre o concorrente mais próximo. É o puro capitalista, o primeiro a abater.
Do outro lado temos o funcionário público. Como o Estado não cria dinheiro, estes trabalhadores são sustentados pelos impostos pagos pelo sector privado. Na verdade, o argumento de que a função pública paga impostos, não passa de uma mera artimanha contabilística. A verdade é que o pagamento de imposto de um funcionário público representa simplesmente dois ou três movimentos contabilísticos do mesmo dinheiro. Ora, no limite, aquilo que um indivíduo do sector privado exige, é que o seu dinheiro, que sob a forma de imposto serve para remunerar o funcionário da AP, sirva para lhe fornecer os serviços que supostamente o Estado diz que fornece. Quando tal não acontece, temos o outro lado na luta de classes. É a revolta daqueles que arriscaram não só o seu capital, como a sua própria forma de vida, contra os "outros", aqueles que são sustentados pelo seu dinheiro, capital e trabalho.
É paradigmático que isto seja o verdadeiro estado das coisas. Num primeiro momento, porque aquilo que se pensava ser o fim da influência comunista no mundo ocidental (o final do século XX)verdadeiramente não aconteceu. Por outro lado, as próprias influências culturais não deveriam ter permitido que se chegasse a esta situação. Se há algo que o Cristianismo nos trouxe, foi o respeito pela noção de propriedade privada, o livre-arbítrio, a "condenação" da inveja e o respeito pela vida, pelo próximo, e talvez o mais importante, a base do conceito de democracia, a de que perante Deus, somos todos iguais.